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quarta-feira, 25 de março de 2026

Filhos fazendo 18 anos: o que muda quando o ninho começa a esvaziar


 

Em termos de tempo de vida, na realidade, é só um dia depois do outro, mas o marco dos 18 anos é uma transição importante para eles e para nós, enquanto família.

Quando os filhos fazem 18 anos, começa uma fase marcada por autonomia, mudanças e o início do chamado ninho vazio.

Iguais, mas tão diferentes

Liam, espírito aventureiro, se mudou de cidade junto com seu companheiro para fazer faculdade e está aguardando a chamada para seu primeiro emprego. Do menino rebelde que sempre achou a escola um fardo, mesmo tirando boas notas e cumprindo com a sua ‘responsabilidade’ no limite do necessário, agora estuda várias horas por dia, não perde aulas, paga aluguel, anda de ônibus, arruma a própria bagunça. Sair da zona de conforto é o que ele faz de melhor.

Camila, que decidiu esperar mais um ano para a faculdade, não quis fazer vestibular porque foi mal no Enem – se confundiu com o gabarito – e acreditou não estar preparada. 

Não quis se jogar no desconhecido de mudar de cidade ainda sem fazer uma reserva financeira, sabe que não podemos ajudar com tudo como gostaríamos. É mais precavida, mais planejadora. Já começou a trabalhar, mesmo achando que demoraria muito a conseguir seu primeiro emprego, pois ela é muito mais capaz do que acredita. 

A vida passa um dia após o outro, mas as responsabilidades da vida adulta chegam como uma tempestade: sem avisar e derrubando muitas das nossas construções internas.

Não teve festa de aniversário. Liam veio na corrida no fim de semana anterior, almoçamos juntos no domingo e foi só. Às vezes é o que basta, mas na primeira oportunidade faremos uma comemoração, talvez até com a presença do mano, que agora está mais perto de nós e é mais fácil de vir.

O som do silêncio

A nossa casa agora está incrivelmente silenciosa. Dos cinco filhos, só Camila e Álex estão em casa. Passamos boa parte do dia juntos, mas cada um com seus afazeres. 

  • Carlos trabalha em casa desde o nascimento dos gêmeos. Sai eventualmente para atender algum cliente, mas a maior parte do trabalho é em casa. 

  • Camila está em home office, com horário e foco total. Sigo o mesmo ritmo quando faço minhas coisinhas, embora não tenha obrigação, muito menos horário. 

  • Álex está aguardando para iniciar no estágio e focado (finalmente) na escola e nas terapias.

Não temos mais crianças em casa, ninguém correndo, nem gritando, nem rindo alto a todo instante. Não ouvimos mais aquele “manhêêê! paiêêê!” a cada instante. 

Esse silêncio tem um lado bom. É um sossego que muitas vezes nos falta enquanto eles estão crescendo. Crianças demandam atenção, tempo e energia. Temos quase nenhum trabalho agora com os filhos, embora a preocupação só aumente conforme eles crescem e passam a tomar conta da própria vida, porque cada vez temos menos autoridade para interferir. 

Em compensação, às vezes nos dá uma sensação de vazio. É o que mais nos faz ter noção de que estamos envelhecendo e que daqui a pouco seremos só nós dois. 

Tento não ver isso como algo ruim, afinal é pra isso que a gente cria os filhos, para que não dependam de nós, para que alcem os próprios voos, que sigam os próprios sonhos. Mas às vezes bate uma nostalgia, uma saudade daquelas coisinhas pequenas correndo pela casa e inventando mil brincadeiras. 

O que fará com que vivamos nossas vidas depois que todos deixarem o ninho é a certeza de que fizemos um excelente trabalho apesar das nossas limitações. É saber que cometemos muitos erros sim, mas que procuramos aprender com eles. E que apesar dos erros que cometemos, criamos seres humanos muito melhores do que nós. 

O ninho, o porto seguro

O que eu sei é que nós também precisamos fazer planos. Porque ninho vazio e casa em silêncio, só é bom quando a gente precisa descansar ou quando os filhos precisarem de um pouso num lugar seguro, seja por necessidade ou saudade, sempre haverá espaço para eles e suas famílias: no nosso abraço, no nosso colo, na nossa casa.


O ninho não é um espaço físico; é um espaço onde corações e mentes permanecem juntos.

2 comentários:

  1. CARLOS ALBERTO DA SILVA SIQUEIRA26 de março de 2026 às 18:49

    O vazio existêncial que fica quando vão embora deve ser preenchido com objetivos que tinhamos quando eles nem existiam ainda. Assim como nós que saimos de casa sem muito sofrimento, eles também devem fazer o mesmo, não devemos ser egoistas neste ponto. O que temos que fazer é focar em nossa saúde e nossos afazeres diarios, não deixar de sonhar, porque sonhar nos joga para o futuro. Ninguém sabe o tempo que ainda tem, mesmo sendo jovem ou velho, então vamos viver e conviver sempre que possivel, porque a vida só tem sentido quando compartilhamos o que temos e o que sabemos. A saudade sempre vai existir, só não deve ser transformada em dor.

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    1. Saudades não são dolorosas quando vem de boas recordações. Às vezes dá uma vontade de voltar no tempo, mas é pra frente que o tempo anda. Inclusive nossos sonhos vão se modificando com o tempo. Tem certas coisas que não alcançamos mais. E tá tudo bem. O importante é não parar de sonhar.

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Dar nome às nossas vivências traz um alívio difícil de descrever. Você também está em um processo de se redescobrir ou ressignificar sua trajetória? Vamos conversar?