Diagnóstico Tardio - O caminho imprevisível.
Num primeiro momento, vou falar bastante sobre autismo. Ainda estou processando as informações, entendendo melhor o funcionamento do meu cérebro e aprendendo a conviver com essa realidade que sempre esteve comigo, mas que só agora reconheço com clareza.
Se essa condição me acompanha desde a infância, a consciência dela é recente. E isso muda muita coisa.
O desafio do diagnóstico de autismo na vida adulta
A avaliação de autismo em adultos está longe de ser simples. O primeiro obstáculo é encontrar um médico disposto a ouvir e considerar a hipótese.
Depois de 20 anos convivendo com esclerose múltipla, aprendi duas lições importantes: médicos não gostam quando o paciente chega com um “diagnóstico pronto”, e nenhuma busca no Google ou no ChatGPT substitui anos de formação e experiência clínica.
Existe uma linha tênue aí. Informação demais pode soar como afronta. Informação de menos pode significar invisibilidade. A relação médico-paciente é delicada e pode se deteriorar nos primeiros minutos de consulta.
Falando do SUS, que é a minha realidade, a situação pode ser ainda mais complexa. Muitas vezes existe um preconceito silencioso: se a pessoa depende do sistema público, presume-se falta de conhecimento. Isso interfere na escuta. E, sim, às vezes é preciso firmeza para ser levada a sério.
“Você se comunica bem demais para ser autista”
Chegar a um consultório após os 50 anos e dizer “desconfio que posso ser autista” ainda soa surreal, inclusive para mim.
Os critérios diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista evoluíram muito nas últimas décadas. A própria compreensão do que significa “espectro” no autismo é relativamente recente. Quem nasceu antes dos anos 90 pode ter atravessado a vida inteira sem sequer considerar essa possibilidade.
Mesmo hoje, muitos profissionais que não são especializados em neurodivergência ainda utilizam critérios ultrapassados. O clássico: “você se comunica muito bem, não pode ser autista”, é muito comum para invalidar a hipótese.
Essa frase ignora a diversidade dentro do espectro e desconsidera que comunicação elaborada não anula dificuldades sociais, sensoriais ou de flexibilidade cognitiva.
Como funciona a avaliação psicológica para TEA
Superada a barreira inicial, começa o processo de avaliação propriamente dito.
É preciso revisitar a própria história, contar a vida inteira quase em câmera lenta, identificar padrões de comportamento e reconhecer prejuízos concretos decorrentes deles. Testes padronizados podem ser aplicados. Eles não confirmam nem descartam o diagnóstico sozinhos, mas, dependendo da pontuação, reforçam ou enfraquecem a hipótese.
A avaliação psicológica é demorada. São vários encontros, muitos instrumentos, muitas conversas e lembranças que nem sempre estão tão claras quanto gostaríamos.
Também é fundamental ouvir quem convive com a pessoa avaliada. A percepção externa não é idêntica à nossa, mas raramente é totalmente diferente. Quando relatos, testes e observações começam a convergir, certos padrões ficam difíceis de ignorar.
Meu diagnóstico: TEA nível 1 de suporte
No meu caso, as pontuações nos testes padronizados foram altas, tanto nas minhas respostas quanto nas dos meus familiares.
Somadas à identificação das minhas limitações e ao impacto real delas na minha vida, essas evidências levaram a psicóloga, após meses de avaliação, a concluir pelo diagnóstico de TEA nível 1 de suporte.
No relatório final também constaram:
TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada)
TDR (Transtorno Depressivo Recorrente)
Hipótese de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)
Hipótese de AH/SD (Altas Habilidades/Superdotação)
O TDAH deverá ser reavaliado, já que alguns sintomas podem ser sobreposição da fadiga e da disfunção executiva associadas ao TEA.
Quanto às altas habilidades, embora os dados observacionais e clínicos indiquem uma hipótese consistente, são necessários testes padronizados específicos para confirmação.
Dupla excepcionalidade: quando TEA e altas habilidades coexistem
A coexistência entre TEA e AH/SD é chamada de dupla excepcionalidade.
Enquanto o TEA pode explicar rigidez cognitiva, sensibilidade sensorial e dificuldades de adaptação social, as altas habilidades ajudam a compreender o raciocínio complexo, a expressão verbal elaborada, a intensidade emocional e a necessidade profunda de coerência interna.
Sugerir AH/SD não é “me achar”. É tentar entender um perfil neurocognitivo complexo.
O preconceito, porém, costuma ser imediato. Muitas pessoas associam altas habilidades a sucesso visível, desempenho extraordinário ou reconhecimento público. Como se a vida tivesse obrigação de ser linear e brilhante.
Mas superdotação não é garantia de realização. É potencial elevado em determinadas áreas, muitas vezes coexistindo com limitações importantes em outras.
Quando combinada ao TEA, pode acontecer algo paradoxal: as altas habilidades mascaram dificuldades sociais, e o autismo obscurece o potencial intelectual.
O resultado, em muitos casos, é frustração crônica, ansiedade e uma sensação persistente de inadequação.
E talvez seja exatamente sobre isso que eu precise falar agora.

