Uma reflexão sobre voto, democracia e as escolhas que fazemos antes de apertar CONFIRMA.
Quando eu era criança, acreditava que algumas coisas simplesmente eram.
Mulheres votavam. Pessoas podiam escolher seus representantes. Direitos existiam. Democracia existia.
Só muito depois entendi que nada disso era exatamente “natural”.
Eu nasci em 1970 e nunca vivi em um Brasil onde mulheres não pudessem votar. Mas vivi em um Brasil onde não podíamos escolher o presidente.
Meu primeiro voto para presidente foi em 1989. Eu era jovem, mãe, e entrei na cabine eleitoral carregando meu filho nos braços. Talvez por isso, tantos anos depois, eu ainda me emocione quando voto.
Não porque ache a democracia perfeita.
Mas porque vivi o suficiente para saber que ela não está pronta.
Ela precisa ser escolhida novamente.
Essa é uma ideia que já escrevi aqui, quando falei sobre direitos que pareciam eternos:
“Quem acredita que depois de lutar muito para conquistar um direito pode parar de lutar está enganado. O objetivo apenas muda de conquista para manutenção.”
E é justamente daí que nasce esta reflexão.
Porque, se direitos não são eternos, se democracia não é um objeto que recebemos e guardamos numa gaveta, talvez seja importante prestar um pouco mais de atenção ao momento em que fazemos nossas escolhas.
Você sabe o que está escolhendo quando vota?
Não estou perguntando em quem você vai votar.
Também não estou dizendo em quem você deveria votar.
A pergunta é anterior a essa.
O que, afinal, estamos escolhendo?
Não é um concurso de simpatia
Existe uma tendência curiosa quando chegam as eleições.
A gente olha para os candidatos, escolhe aqueles de quem gosta, rejeita aqueles de quem não gosta e, às vezes, reduz tudo a uma espécie de concurso de simpatia política.
Só que eleição não é isso.
Não estamos escolhendo quem gostaríamos de convidar para jantar.
Estamos escolhendo pessoas para ocupar cargos públicos, com responsabilidades específicas e poderes definidos.
E talvez essa seja uma das coisas que mais se perdem no meio de campanhas, debates, memes, vídeos curtos, slogans e brigas nas redes sociais:
antes de escolher uma pessoa, precisamos entender o cargo que ela pretende ocupar.
Porque não adianta avaliar um candidato sem saber o que aquele cargo pode, deve ou não deve fazer.
Afinal, quem faz o quê?
No dia da eleição, não fazemos uma única escolha.
Fazemos seis.
Escolhemos:
- deputado federal;
- deputado estadual;
- senador;
- senador;
- governador;
- presidente.
Se você parou agora para pensar “é mesmo, são seis?”, já encontramos uma parte do problema.
A eleição presidencial costuma ocupar tanto espaço no debate público que parece que todo o resto acontece em segundo plano.
Mas o Congresso Nacional não é composto pelo presidente.
E Brasília não é o único lugar onde decisões que afetam nossa vida são tomadas.
Deputados federais e senadores
No âmbito federal, elegemos representantes para o Congresso Nacional.
Deputados federais e senadores participam da elaboração das leis federais e exercem funções de fiscalização do Poder Executivo.
São eles que estarão tomando decisões em nosso nome sobre uma enorme quantidade de assuntos que fazem parte da vida cotidiana.
E há uma diferença importante entre esses dois cargos.
Deputados federais representam seus estados na Câmara dos Deputados.
Senadores representam os estados no Senado e têm mandato e atribuições próprias.
Ou seja: quando escolhemos um deputado federal ou um senador, não estamos simplesmente escolhendo “alguém de Brasília”.
Estamos escolhendo quem vai nos representar nas decisões do país.
Governador
Também escolhemos quem governará o nosso estado.
O governador exerce o Poder Executivo estadual. É responsável pela administração do estado e pela execução das políticas públicas que estão sob sua competência.
Saúde, educação, segurança, transporte e tantos outros serviços públicos passam, em diferentes graus, pelas decisões do governo estadual.
E isso significa que talvez aquele candidato que aparece muito menos no nosso feed do que os candidatos à Presidência tenha uma influência bastante concreta sobre a nossa vida.
E o deputado estadual?
Talvez seja o grande esquecido do churrasco eleitoral.
O deputado estadual faz parte da Assembleia Legislativa do estado.
Ele participa da elaboração e votação das leis estaduais, fiscaliza o governador e participa das decisões relacionadas ao orçamento estadual.
Ou seja: enquanto a gente acompanha apaixonadamente a disputa presidencial, há outra eleição acontecendo ao mesmo tempo.
E nela estamos escolhendo quem vai tomar decisões muito mais perto de nós.
Saúde.
Educação.
Segurança.
Transporte.
Serviços públicos.
Muita coisa que acontece perto da gente passa pelas decisões tomadas no âmbito estadual.
Por isso, talvez valha perguntar não apenas:
“Quem é esse candidato?”
Mas:
“O que esse cargo faz?”
E, depois:
“O que essa pessoa pretende fazer com ele?”
Mas como escolher um candidato?
Aqui começa a parte mais difícil.
Porque não existe candidato perfeito.
E isso não é novidade.
Nenhuma pessoa chega à política sem história, contradições, limitações, escolhas anteriores, alianças e interesses.
Esperar encontrar alguém que corresponda integralmente a tudo aquilo em que acreditamos provavelmente significa esperar por uma pessoa que não existe.
Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer que nenhum candidato é perfeito e concluir que tanto faz quem for eleito.
Não dá no mesmo.
Por isso, talvez uma escolha razoável comece menos pela pergunta “eu gosto dessa pessoa?” e mais por algumas perguntas incômodas.
O que ela defende?
O que já fez?
Como se posicionou quando precisou decidir?
Quem são seus aliados?
Que projetos apresenta?
Esses projetos são compatíveis com as atribuições do cargo?
São viáveis?
Os objetivos dessa pessoa se aproximam daqueles que eu considero importantes?
Não precisamos concordar com tudo.
Mas precisamos saber com o que estamos concordando quando colocamos nosso voto ali.
“Mas todos são iguais”
Essa talvez seja uma das frases mais perigosas de uma eleição.
Não porque seja proibido estar decepcionado com a política.
Eu mesma já escrevi sobre o meu desencanto com partidos e políticos.
Mas dizer que todos são iguais é transformar diferenças concretas em uma espécie de paisagem borrada.
Candidatos não são iguais.
Partidos não são iguais.
Projetos não são iguais.
Histórias não são iguais.
Interesses não são iguais.
As decisões que cada um toma também não são iguais.
Podemos considerar que nenhum deles nos representa completamente.
Podemos discordar de todos em alguma medida.
Podemos inclusive decidir que nenhum candidato é nossa escolha ideal.
Mas isso não elimina a necessidade de escolher.
Porque alguém ocupará aquele cargo.
Alguém votará aquelas leis.
Alguém decidirá aquele orçamento.
Alguém fiscalizará, ou deixará de fiscalizar, o governo.
Alguém governará.
A questão não é encontrar o candidato perfeito.
É compreender qual escolha faz mais sentido diante daquilo que está em jogo.
E em quem eu voto?
Aqui entra uma coisa que considero importante dizer claramente:
eu não vou dizer em quem você deve votar.
Posso falar sobre as minhas convicções.
Posso explicar por que determinadas propostas fazem sentido para mim e outras não.
Posso contar como cheguei às minhas escolhas.
Mas o meu voto é meu.
O seu é seu.
E talvez essa seja justamente uma das coisas mais bonitas e mais difíceis da democracia: precisamos conviver com o fato de que outras pessoas podem fazer escolhas diferentes das nossas.
Democracia não exige que todo mundo pense igual.
Exige que a gente reconheça que o outro também tem o direito de escolher.
Isso vale quando concordamos.
E vale principalmente quando não concordamos.
A escolha começa antes da urna
No dia da eleição, você não vai votar apenas para presidente.
Vai escolher deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente.
Seis escolhas.
Seis conjuntos diferentes de atribuições.
Seis oportunidades de colocar alguém em uma posição de poder e representação.
E talvez a parte mais importante do voto aconteça antes de chegar à urna.
Pesquisar.
Ler.
Ouvir.
Comparar.
Conhecer.
Entender o cargo.
Descobrir o que cada candidato defende.
Saber quem apoia.
Olhar para o que já fez.
Observar como se posiciona.
Pensar se aquilo corresponde às suas expectativas e aos seus valores.
Não é preciso transformar a eleição em uma tese de doutorado.
Mas talvez seja razoável dedicar à escolha de quem exercerá poder em nosso nome um pouco mais de tempo do que dedicamos escolhendo uma série para assistir.
E, depois de pesquisar, anotar os números dos candidatos.
Na ordem:
Deputado Federal → Deputado Estadual → Senador 1 → Senador 2 → Governador → Presidente.
Porque, no meio da urna, entre memória, nervosismo e aquele momento em que a máquina parece estar olhando para a nossa alma, é melhor não depender da inspiração.
A democracia não termina no “CONFIRMA”
Talvez essa seja a parte que mais me interessa.
A democracia não termina quando apertamos CONFIRMA.
Ali começa outra coisa.
A responsabilidade de quem foi escolhido.
E também a nossa responsabilidade como eleitores.
Porque votar e desaparecer durante quatro anos não é exatamente acompanhar uma democracia.
Se escolhemos alguém para nos representar, precisamos saber o que essa pessoa está fazendo.
Precisamos acompanhar.
Cobrar.
Questionar.
Reconhecer quando faz um bom trabalho.
Criticar quando não faz.
E lembrar, na próxima eleição, do que aconteceu entre uma urna e outra.
Foi isso que aprendi, talvez muito cedo, observando a história dos direitos.
Conquistar não basta. É preciso manter.
E manter direitos exige participação.
Democracia também.
Talvez por isso a pergunta “em quem você vai votar?” seja pequena demais.
Antes dela existem outras.
O que você está escolhendo?
Para qual cargo?
O que esse cargo pode fazer?
Quem está pedindo seu voto?
O que essa pessoa defende?
Quem ela representa?
O que já fez?
O que pretende fazer?
E, principalmente:
o que você espera que aconteça depois que a urna registrar a sua escolha?
Não existe voto capaz de garantir que o futuro será exatamente como imaginamos.
Não existe candidato perfeito.
Não existe democracia pronta e acabada.
Existe uma sociedade fazendo escolhas.
E depois vivendo com elas.
Foi assim que aprendi a olhar para os direitos que um dia pareciam eternos.
Eles não eram.
Talvez democracia também não seja.
Por isso ainda me emociono quando voto.
Não porque acredito que votar resolva tudo.
Mas porque sei que não votar, escolher sem saber o que está escolhendo ou entregar a escolha ao “tanto faz” também são formas de participar do que acontece depois.
No fim, talvez seja isso que estamos escolhendo.
Não apenas pessoas.
Estamos escolhendo quem terá poder para decidir em nosso nome.
E democracia, como os direitos que ela deveria proteger, não é algo que conquistamos uma vez e podemos considerar garantido para sempre.
Ela precisa ser escolhida de novo.
Toda vez que entramos em uma urna.
E, talvez ainda mais importante, todos os dias depois dela.
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