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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Deixando cair as máscaras: o peso do masking no autismo

Uma das características do Autismo que mais dificulta o diagnóstico em meninas e mulheres é a habilidade de masking.

Mas o que é masking? É ser falsa? Absolutamente não.

Masking é a capacidade de imitar gestos, falas e comportamentos sociais para parecer menos estranha.

O que parece natural às vezes foi ensaiado. 

Meninas e mulheres são adestradas desde o nascimento para serem dóceis, suaves, femininas. Para servir aos outros sem reclamar. E, se aliado a isso houver inteligência preservada, nem precisa ser acima da média, o masking é aprendido antes mesmo da fala.

Meninas aprendem cedo a sobreviver socialmente. 

Quando surgiu minha suspeita de autismo, isso foi o que mais me pegou.

“Eu não faço isso. Sou autêntica.”

Será mesmo?

A primeira máscara pode nascer diante do espelho. 

Então vieram as lembranças das horas passadas em frente ao espelho, examinando minhas expressões, ensaiando sorrisos, conversando sozinha para desenvolver minha capacidade de falar com os outros.

Lembrei também da época em que trabalhei em um escritório de contabilidade. Quando comecei lá, eu chegava e dizia apenas “oi”. Uma colega sem papas na língua, que depois virou uma grande amiga, me corrigiu:

“Oi nada. Dê bom dia às pessoas.”

E assim, aos 30 anos de idade, aprendi a dar bom dia.

Algumas pessoas aprendem regras sociais por instinto. Outras, por estudo. 

Existe um cálculo invisível em cada interação. 

Aos 34, quando recebi o diagnóstico de esclerose múltipla e comecei minha rotina de viagens para consultas e exames, percebi outra coisa: se eu tratasse as pessoas dos guichês da vida com educação, mas acrescentasse um sorriso simpático e alguma observação empática tipo “deve ser difícil lidar com público, né?”, elas se desarmavam e me atendiam com mais cordialidade.

Isso não é falsidade.

É aprender como as relações sociais funcionam em cada contexto e se adaptar para obter um resultado melhor.

Ainda hoje, é quase impossível ser amável e empática quando estou no limite da sobrecarga, da fadiga e da dor. Mesmo assim, eu me esforço, porque é assim que eu gostaria de ser tratada.

Mas esse movimento não é natural.

Não é falsidade. É tradução emocional. 

É pensado. Calculado.

Não para parecer algo que não sou, mas para conseguir demonstrar algo que sinto e não consigo expressar naturalmente.

Até pedir pão pode exigir roteiro. 

Sempre que preciso falar com um estranho, mesmo numa situação banal, como pedir pão na padaria, eu ensaio minha fala.

Ensaio para lembrar de dar bom dia, de sorrir ou ao menos relaxar o rosto para não parecer brava, pedir meu pãozinho com educação e agradecer depois.

Só que, se antes de eu começar o atendente disser alguma coisa, meu roteiro quebra.

Eu me atrapalho, gaguejo, saio dali parecendo uma pessoa em completo sofrimento psíquico que não conseguiu nem pedir pão.

Talvez porque seja exatamente isso que aconteceu.

As pessoas não seguem o roteiro do meu ensaio.

O improviso social pode parecer um abismo.

Em dias bons, descansada, consigo improvisar e resolver. Mas isso raramente acontece, porque sair de casa já provoca sobrecarga.

O desgaste mora nas pequenas coisas. 

Esses são exemplos pequenos, quase bobos, do meu dia a dia. Mas o masking acontece em muitas situações em que ele nem deveria existir.

Mesmo entre amigos. Mesmo entre familiares.

O masking não termina quando acaba a socialização. 

Eu calo o que estou sentindo ou pensando e forço uma interação mais “normal” para evitar conflitos, para ser aceita, querida.

E o masking social não é exclusivo de pessoas neurodivergentes. Todo mundo faz isso em algum momento. Numa reunião de trabalho em que você está exausta, mas continua sorrindo para não perder o emprego, por exemplo.

A diferença é que, para quem é neurodivergente, isso acontece o tempo inteiro.

Desde sempre.

E consome uma energia gigantesca.

Viver atuando cansa mais do que parece. 

O diagnóstico também é desaprender máscaras.

Uma das primeiras necessidades que vieram junto com o diagnóstico foi aprender a me livrar disso.

Não vou me tornar mal educada. Mas vou me permitir me esforçar menos quando não tiver energia suficiente.

Aprender a deixar cair as máscaras do dia a dia é tão satisfatório quanto doloroso. E também gera conflitos.

Porque as pessoas percebem a diferença.

Hoje, já não peço licença para me isolar. Sei que preciso disso toda vez que chego em casa, mesmo que tenha saído só para ir ali e voltar.

Descansar deixou de ser culpa. 

Minha família e as pessoas mais próximas já sabem disso.

Se conseguem entender, é outra conversa.

Porque entender exige interesse. Exige disposição para aprender sobre a minha condição, sobre o que me afeta e sobre como evitar minhas crises.

E quem não tem interesse em entender, sinto muito.

Eu cansei de sobreviver performando normalidade. 

Eu já não tenho mais interesse em sofrer para que os outros se sintam confortáveis na minha presença.




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