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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Autismo: Diagnóstico tardio - Relato pessoal

A vontade de voltar a escrever tornou-se necessária e urgente.

Registrar meu dia, pensamentos, angústias e pequenas conquistas é a versão adulta do meu passatempo favorito de infância: conversar comigo mesma em voz alta, em frente ao espelho, ensaiando 'caras e bocas', experimentando novas expressões.

Só recentemente entendi o porquê dessa dinâmica: sou uma pessoa autista.


Essa descoberta aconteceu ao longo dos últimos 3 anos, enquanto acompanhava o diagnóstico tardio da minha caçula. A jornada em busca de entender e apoiar minha adolescente revelou uma verdade incômoda: eu não percebia os sinais dela porque via nela um reflexo de mim mesma. Sem um diagnóstico próprio, como poderia imaginar que aquilo era o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

O Sentimento de ser "esquisita"

Dizer que nunca desconfiei não é totalmente verdade. Sempre senti que havia algo 'errado'. Eu me sentia estranha, com dificuldades em me conectar, sustentar vínculos ou entender o funcionamento social das outras pessoas. É como se eu fosse um app feito para Android tentando rodar no iOS.

No passado, cheguei a fazer testes rápidos de triagem. Sempre pontuava no limite, mas ignorava o resultado, achando que, por estar sugestionada, minhas respostas teriam viés de confirmação. O que realmente me impedia de aceitar a possibilidade era o preconceito: a ideia de que o autismo estava sempre ligado a um déficit intelectual e de linguagem, além de atrasos no desenvolvimento — algo que nem eu, nem minha filha, temos.

Esse desconhecimento não era só meu.

Porque o diagnóstico em meninas e mulheres é mais difícil e costuma ser tardio?

Até 1994, o diagnóstico de autismo era restrito a casos graves. Com o DSM-IV, a Síndrome de Asperger foi reconhecida, abrangendo quem não tinha atraso de linguagem ou no desenvolvimento intelectual. Em 2013, o termo foi unificado no TEA (Nível 1 de Suporte).

Além disso, o diagnóstico em mulheres é frequentemente invisibilizado, de detecção mais difícil e tardia devido a uma combinação de fatores biológicos, sociais e históricos. As principais razões incluem:

  • Camuflagem Social (Masking): Mulheres autistas tendem a desenvolver, desde cedo, habilidades para imitar comportamentos neurotípicos e ensaiar interações sociais para "se encaixarem", o que esconde os sinais clínicos do transtorno.

  • Viés Histórico de Gênero: Os critérios diagnósticos tradicionais foram baseados quase exclusivamente em estudos com meninos. Isso faz com que médicos busquem sinais tipicamente masculinos, como atraso na fala ou interesses em objetos inanimados (trens, mapas), ignorando o fenótipo feminino.

  • Interesses Restritos "Aceitáveis": Enquanto em homens os interesses focados costumam ser técnicos, em mulheres eles podem se voltar para temas socialmente comuns, como psicologia, animais, arte ou literatura, o que não levanta suspeitas imediatas de rigidez cognitiva.

  • Expectativas Sociais: Meninas são frequentemente educadas para serem mais quietas, educadas e sociáveis. Comportamentos como timidez excessiva ou introspecção são vistos apenas como traços de personalidade e não como possíveis sinais de autismo.

  • Diagnósticos Equivocados: É comum que mulheres autistas nível 1 recebam diagnósticos prévios de transtornos de humor, ansiedade, TDAH ou borderline antes que o autismo seja identificado como a causa base de suas dificuldades.

O alívio de nomear a própria vida

O incômodo com a revelação trouxe um sentimento dúbio: o alívio de saber que meus fracassos não eram culpa minha e a angústia de pensar o quanto de dor teria sido evitada se eu soubesse disso antes.

A confirmação veio no ano passado, aos 54 anos. Foram cinco décadas tentando caber em moldes que não foram feitos pra mim, me culpando por ser 'disfuncional' e tentando entender por que consigo realizar tarefas complexas, mas esqueço de escovar os dentes. Carreguei rótulos de preguiçosa, teimosa, grossa, metida e egoísta quando, na verdade, eu só precisava de um suporte que nunca tive.

Assim como aconteceu com meu diagnóstico de Esclerose Múltipla há 21 anos, dar nome às coisas traz mais paz do que sofrimento. Minha vida inteira finalmente começou a fazer sentido.

Identificar, nomear, entender. Isso muda tudo: a forma como vejo meus pais, irmãos, meus filhos e meu casamento

. Inclusive, há uma urgência em avaliar a família toda, já que o TEA tem uma hereditariedade superior a 90%.

Ainda estou processando as descobertas. Sigo revisitando minha história, ressignificando cada tropeço e cada conquista. É um processo de cura que chegou no momento em que eu mais buscava conexão com meu verdadeiro eu.

E você? Também já sentiu que 'não pertencia' ou recebeu diagnósticos que não explicavam tudo? Vamos conversar nos comentários.

6 comentários:

  1. Dar nome as coisas nos reorganiza mesmo, muito importante! Que bom que está conseguindo entender tudo melhor e que está tornando pública a tua experiência, em uma realidade onde ninguém fala sobre, é muito relevante haver relatos como esse.

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  2. Muito bom te ver se descobrindo, se conhecendo e se entendendo, pois vi uma mãe que passou por muito preconceito e dificuldades, para mim também foi um alívio quando vi seu diagnóstico e sabia que a partir dali tu poderia achar formas de facilitar situações que por tanto tempo foram difíceis. Saiba que tô sempre aqui para o seu apoio, boa sorte com seu novo blog, fico feliz de te ver escrever novamente!!!

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    1. Entender minhas esquisitices é muito libertador de preconceitos que eu mesma tinha comigo. E escrever sempre foi uma boa maneira de organizar meu caos.

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  3. Que delícia te ver voltar a escrever! Ver vc se encontrando, se entendendo, tendo os porquês!
    ❤️

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Dar nome às nossas vivências traz um alívio difícil de descrever. Você também está em um processo de se redescobrir ou ressignificar sua trajetória? Vamos conversar?