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Coletânea de Textos Antigos e Ktralhas 1. Textos preservados como parte da trajetória de escrita.

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domingo, 23 de agosto de 2026

É assim que meu cérebro funciona.

Eu saí para caminhar. Antes de sair, resolvi deixar o microfone aberto. 

Não tinha pauta, assunto definido nem intenção de escrever alguma coisa depois. Fui pensando em voz alta enquanto caminhava.

Quando ouvi o áudio, percebi que tinha acontecido uma coisa que conheço bem: um pensamento puxou outro, que puxou outro, e quando dei por mim estava falando de caminhar, do meu corpo, da minha neta, do autismo, da esclerose, do mar, dos meus pais, dos meus filhos e de envelhecer.

Resolvi não jogar fora a conversa que tive comigo mesma.


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“Eu sempre gostei de caminhar.

Muito antes de saber que isso poderia ser uma forma de regular alguma coisa dentro de mim, caminhar já era uma espécie de terapia.

Na adolescência, eu pegava o ônibus até o centro da cidade, descia e me perdia pelas ruas. Escolhia uma direção e ia, a esmo. Não tinha destino específico, não ia a lugar nenhum. Só caminhava por ruas diferentes, explorava, pensava.

Ia até achar que precisava guardar o resto da energia para conseguir voltar.

Hoje eu consigo olhar para isso e entender um pouco melhor o que eu estava fazendo. Eu caminhava para pensar, organizar os pensamentos, me regular.

O que mudou foi que, depois do diagnóstico de esclerose múltipla, caminhar deixou de ser uma coisa tão simples.

Eu perdi força do lado direito. Tenho desgaste no quadril, joelho para dentro, pisada pronada e uma coleção de outras pequenas tranqueiras que provocam desconforto e dor. Preciso cuidar do corpo para conseguir fazer uma coisa que, durante boa parte da vida, simplesmente fazia.

Também comecei a entender algumas coisas da minha infância de outra maneira.

Eu era aquela criança que se enroscava nas próprias pernas e caía. Desajeitada, descoordenada, a famosa "boca aberta".

Hoje penso que havia ali também uma percepção diferente do meu próprio corpo e do espaço que ele ocupava. Talvez isso tivesse relação com o autismo que só fui compreender muito mais tarde.

É curioso como um diagnóstico pode reorganizar memórias antigas.


Há dois anos, pouco antes de minha neta nascer, eu estava me recuperando de uma fascite plantar. Meu pé ainda doía bastante e eu saía de bengala, para ajudar no apoio.

Um dia saí com meu filho mais novo, de braço dado com ele.

Ainda assim, consegui torcer o pé com bastante violência e caí.

Tive uma nova torção ligamentar no tornozelo, uma fratura por avulsão e, ao cair sobre o braço, acabei desenvolvendo depois uma bursite por impacto. O braço ficou praticamente sem movimento e qualquer tentativa de movimentar, provocava muita dor.

Tudo isso aconteceu quatro dias antes de minha neta nascer.

Eu estava cansada, estressada e, olhando hoje, talvez estivesse também em um burnout autista que eu ainda não sabia reconhecer.

Mas eu precisava me recuperar.

Não porque tivesse feito algum grande pacto com a vida.

Eu precisava me recuperar porque queria carregar minha neta no colo.

E já pensava nela com dois anos, correndo, e em mim precisando ter energia e equilíbrio para correr com ela e atrás dela.

Então fui devagarzinho.

Do meu jeito.

Tentando melhorar.


Mais tarde, o Yúri, marido da minha amiga e irmã Bruna, professor e preparador físico, começou a me passar exercícios para fazer em casa.

No começo eu fazia quando conseguia, mas não tinha incorporado aquilo à minha rotina. Não tinha virado hábito.

Mesmo assim, comecei a perceber uma coisa importante: era possível melhorar sem equipamentos de academia.

Os exercícios começaram a fazer bem. Recuperei, devagarzinho, os movimentos do ombro. Consegui seis sessões de fisioterapia pelo SUS, que me ajudaram muito, e depois disso fui conseguindo avançar mais.

Yúri e Bruna também foram me incentivando a transformar aquilo em rotina.

Não era uma cobrança agressiva.

Era aquela cobrança delicada das pessoas que gostam da gente.

"Se está fazendo bem, por que não incorporar à rotina?"

E aí aparece uma questão que, para mim, é muito importante quando falamos de autismo.

Eu posso querer muito uma mudança e, ainda assim, ter muita dificuldade para incorporá-la.

Existe uma tendência do cérebro autista de se agarrar às certezas. Mesmo quando elas são desconfortáveis. Aquilo que já é familiar, mesmo que não seja bom, continua sendo conhecido. A gente sabe como funciona.

Uma mudança nova exige tempo.

Vontade.

Energia.

E, muitas vezes, energia que já está sendo gasta com sobrecarga e fadiga.

Então não foi de uma hora para outra.

Foi aos poucos.

Vai indo.

Está sendo.


Há cerca de três meses, Yúri e Bruna começaram a oferecer aulas online gratuitas para um grupo de pessoas com esclerose múltipla.

São duas aulas por semana. A gente se reúne pelo Meet, ele orienta, observa, corrige e ajuda.

O objetivo principal não é fazer ninguém virar atleta.

É conseguir caminhar, se exercitar e fazer as atividades do dia a dia com mais segurança e autonomia.

O meu objetivo extra é bastante específico.

Eu quero ter energia para correr atrás da minha neta enquanto ela permitir que eu corra atrás dela.

Mas tenho outro objetivo, talvez ainda mais importante:

Eu quero, no futuro, ser capaz de limpar minha própria bunda.

Isso é primordial.

Parece piada, mas não é.

Quem tem uma doença degenerativa pensa nessas coisas desde o dia zero, desde a descoberta da doença.

E eu não estou ficando mais jovem.

A idade traz seus próprios desafios. E, para quem já tem um corpo debilitado, enfraquecido ou limitado, algumas dificuldades podem chegar mais cedo.

Então é preciso pôr mãos à obra.


E o que venho recuperando não é apenas força.

É estabilidade.

Equilíbrio.

Segurança.

E, principalmente, confiança no caminhar.

Isso faz diferença na saúde física, claro. Ganho muscular e autonomia são importantes.

Mas existe uma dimensão que talvez seja ainda mais bonita: eu voltei a confiar que posso ficar com minha neta.

Posso brincar.

Posso tomar conta dela.

No começo eu tinha medo.

Agora já consigo ficar mais tempo com ela, sozinha, sem aquele medo constante de não dar conta.

E talvez seja isso que eu esteja aprendendo sobre exercício e sobre mudança de hábitos: não se trata de voltar a ser quem eu era.

Trata-se de conseguir continuar fazendo algumas das coisas que ainda quero viver.


Também estou retomando o prazer de caminhar.

Estou passando uns dias na casa dos meus pais e voltei a caminhar por uma praça perto de casa. Um dia fiz os exercícios de manhã e queria caminhar à tarde, mas estava muito frio. Como suo muito e não percebo o frio até estar praticamente congelada, achei melhor não sair.

No dia seguinte abriu o sol.

Era o primeiro dia de sol depois de vários dias frios e chuvosos e aproveitei para caminhar até o mercado.

Não foi uma caminhada esportiva.

Foi deslocamento.

Eu não acelerei o passo, não botei muita energia.

Mas caminhei.

E caminhar continua sendo uma forma de organizar a cabeça.

Assim como o mar.


Eu ainda não tinha ido ver o mar.

Depois do almoço, queria descer até a beira da praia.

Ver o mar é uma terapia extrema para mim.

Não é exatamente pela praia ou pelo sol. É pelo silêncio.

Pelo espaço aberto.

Pelo barulho do mar e do vento fazendo companhia.

Esse barulho acalma, silencia a mente, organiza, regula.

É uma paz.

Por isso sonho em morar perto do mar.

Caminhar na areia também é bom. Caminhar na beira da água, com a água nas canelas, fazendo um pouco mais de força para avançar, é tranquilizante e energizante ao mesmo tempo.

Se dependesse exclusivamente de mim, talvez eu já estivesse morando ali há muitos anos.

Mas eu não sou sozinha.

Tenho marido.

Tenho filhos.

Tenho responsabilidades.

Então existe também o tempo das coisas.

Talvez, quando os filhos estiverem prontos para seguir suas próprias vidas, eu faça minhas malas e venha.

Quem quiser, que venha junto.

Porque esse lugar é melhor para mim.


Estar perto do mar também significa estar perto dos meus pais.

Eles já têm mais de 80 anos. Estão bem, dentro do que se espera para a idade, mas estão mais esquecidos, mais confusos e já têm dificuldades com algumas coisas que antes eram simples.

Minha mãe continua sendo uma pessoa muito dinâmica, cheia de energia, sempre fazendo alguma coisa.

E muito sozinha.

Durante muito tempo, eu vivi muitas coisas que ela fazia ou dizia como ataques pessoais.

Agora não.

Meu diagnóstico de autismo também mudou isso.

Quando recebi o diagnóstico, comecei a rever toda a minha relação familiar.

Meus pais.

Meus irmãos.

Meus tios.

Meus avós.

Comecei a compreender meu pai e minha mãe de uma maneira que nunca tinha compreendido antes.

Hoje consigo olhar para minha mãe e pensar que aquilo que eu recebia como um ataque talvez não fosse sobre mim.

Talvez fosse sobre a vida inteira dela.

Uma vida em que ela também precisou de apoio muitas vezes e não teve quem a apoiasse.

Muito pelo contrário.

Precisou trabalhar, sustentar a casa, cuidar dos filhos, apoiar os outros.

Ela aprendeu a fazer.

E fazer.

E fazer.

Ela não sabe muito bem o que fazer consigo mesma quando não está trabalhando, limpando, varrendo, subindo, descendo.

Eu tento dizer a ela que não precisa ser tão dura.

Que pode fazer o que consegue.

Que, quando o corpo cansa, pode parar.

Quando a cabeça cansa, pode parar.

Talvez eu esteja dizendo para ela uma coisa que também precise aprender cada vez mais a dizer para mim.


Eu também estou aprendendo a soltar os filhos.

Tenho uma necessidade enorme de estar perto deles.

Eles foram minha razão de viver desde sempre.

E vão continuar sendo.

Mas eles não precisam estar debaixo das minhas asas para isso.

São adultos, ou estão chegando lá.

É natural que cada um tome o rumo da própria vida.

Durante muito tempo, tive dificuldade de aceitar isso.

Especialmente com o Mano.

Ele tem outra família. Uma família grande, próxima, com quem se identifica.

No começo foi difícil.

Eu achava, de alguma maneira, que ele deveria gostar só de mim.

Eu tenho minhas maluquices.

Sou um pouco egoísta às vezes.

Tenho ciúmes.

Tenho.

Mas também consigo refletir.

Parar.

Pensar.

Aceitar.

E hoje estou em paz com isso.

Na verdade, acho bom que ele tenha outras pessoas em quem se agarrar. Pessoas que possam ajudá-lo mais do que eu consigo.

Porque eu posso pouco.

Emocionalmente e financeiramente, posso quase nada.

E reconhecer isso também é uma forma de amor.


Talvez seja esse o ponto em que estou agora.

Aprendendo a continuar sem tentar controlar tudo.

Aprendendo que descanso não é desistência.

Aprendendo que mudar não precisa significar uma grande virada histórica.

Já fiz muita dieta maluca.

Muito plano de exercício maluco.

E demorei para entender que aquilo que é abrupto raramente se sustenta por muito tempo.

Principalmente quando o corpo precisa ser respeitado.

Haverá dias em que não vou conseguir fazer nada.

Vou estar cansada.

E, nesses dias, vou descansar.

Mas isso não é mais motivo para não fazer nada nunca.

Isso está decidido.

Estou mudando meus hábitos do jeito que consigo.

Ainda existe resistência.

Mas já existe bastante sucesso também.

Aos poucos.

Caminhando.

Parando quando preciso.

Voltando quando consigo.

Tentando manter o corpo forte o suficiente e a cabeça funcionando para continuar presente na vida que ainda quero viver.

Enfim.”


2 comentários:

  1. Tenho muita admiração pela pessoa que você é, Tuka! Dentro do que pode, sempre faz tudo pela sua família (e até por quem não faz parte dela! obrigado pelo cuidado), és uma pessoa de muita força! Lindo texto! 💘💪

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  2. Obrigada! É fácil cuidar de quem a gente ama e eu amo você!

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