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Memórias que surgem das fotografias. O passado revelado em fragmentos.

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Coletânea de Textos Antigos e Ktralhas 1. Textos preservados como parte da trajetória de escrita.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

É assim que meu cérebro funciona.

Eu saí para caminhar. Antes de sair, resolvi deixar o microfone aberto. 

Não tinha pauta, assunto definido nem intenção de escrever alguma coisa depois. Fui pensando em voz alta enquanto caminhava.

Quando ouvi o áudio, percebi que tinha acontecido uma coisa que conheço bem: um pensamento puxou outro, que puxou outro, e quando dei por mim estava falando de caminhar, do meu corpo, da minha neta, do autismo, da esclerose, do mar, dos meus pais, dos meus filhos e de envelhecer.

Resolvi não jogar fora a conversa que tive comigo mesma.

sábado, 4 de julho de 2026

Memórias de um direito que parecia eterno

 Uma lembrança pessoal sobre democracia, voto feminino e por que a luta por direitos nunca termina.



Quando nasci em 1970, as mulheres já votavam havia quase quarenta anos.

Nunca vivi num Brasil em que mulheres não pudessem votar. Cresci acreditando que esse era um direito tão natural quanto respirar.

Mas vivi num Brasil em que o povo não podia escolher o presidente.

Em 1989, na primeira eleição direta para presidente da república desde o fim da ditadura militar, era também a primeira vez que eu votava, já que era preciso ter 18 anos completos no dia da eleição.

Eu era uma jovem mãe naquela época, levei orgulhosa meu filho nos braços para me ver depositar meu voto na urna e mal contive as lágrimas de emoção.


Meu interesse pelo assunto nasceu assim, acompanhando minha mãe às urnas. Lembro claramente de uma vez, devia ter uns 4 anos. Minha mãe votava no prédio do sindicato dos metalúrgicos em Porto Alegre. Morávamos naquela mesma rua e minha mãe trabalhava no Hospital Conceição, também na mesma rua. A fila era imensa. Havia várias cabines de voto, separadas por grupos de letras da inicial do nome. Os mesários eram muitos também na minha memória e ficavam numa grande  mesa logo na entrada do enorme salão.


Ainda criança, ouvi falar do decreto da Anistia, de 1979. Quis entender o que era aquilo, porquê e como. Minha curiosidade era muito maior do que a capacidade do meu pai de explicar aquilo para uma pirralha. 


Meu pai sempre comprava o jornal aos domingos. Desde muito pequena, eu não resistia a qualquer coisa escrita. Bastava haver letras para eu querer ler.  Me sentava em frente dele e por estar em posição contrária, lia o imenso jornal de cabeça para baixo. 


Foi assim que aprendi a me informar. Sem perceber, aquele interesse infantil virou hábito. Passei a acompanhar eleições, campanhas e debates como quem tenta entender o país em que estava crescendo. Minha primeira “campanha” foi a das diretas já. Ali entendi bem o que era lutar por um direito e perder. 


Um ano antes do Brasil enfim recuperar o direito de escolher seu presidente, participei ativamente (tanto quanto me foi permitido) da campanha de Olívio Dutra a prefeito de Porto Alegre. Naquela eleição, acompanhei meu namorado até a urna com meu filho de apenas quatro meses no colo. Faltavam oito dias para eu completar 18 anos. Eu ainda não tinha o direito de votar. Chorei de frustração. 


Talvez tenha sido por isso que, no ano seguinte, fiz tanta questão de carregar meu filho nos braços, agora com um ano e quatro meses, quando entrei na cabine de votação pela primeira vez. Não era apenas o meu primeiro voto. Era também a sensação de finalmente ocupar um lugar que, por tão pouco, ainda não era meu no ano anterior. 


Apesar do crescente desencanto com a política partidária brasileira e com os políticos, toda vez que vou às urnas, me emociono. Talvez porque tenha presenciado um tempo em que isso não era permitido. 


Às vezes penso em quem nasceu depois disso tudo. Sempre viveu em uma democracia e é natural pensar que esse é um direito intrínseco, assim como o voto feminino. Spoiler: não é.


A discussão que tomou conta das redes nesta semana mostrou que até mesmo pessoas que não se identificam com o feminismo recorrem, ainda que sem nomeá-la, à linguagem da desigualdade quando experimentam na própria pele a exclusão dos espaços de poder.

Isso me faz lembrar de uma reflexão que me acompanha desde muito antes dessa discussão existir.

Engana-se quem acredita que após lutar muito para conquistar algum direito, pode-se parar de lutar. O objetivo apenas muda da conquista para a manutenção. Nenhum direito, mesmo gravado na constituição, na carta da ONU, em pedra ou nas tábuas da lei está garantido, há sempre quem queira e trabalhe para derrubá-los.


Vivemos um tempo em que muitas conquistas voltaram a ser questionadas. É natural que cada geração tenha dúvidas sobre os rumos da sociedade. Eu também tenho. Mas aprendi que a resposta para essas dúvidas nunca pode ser retirar direitos de quem demorou tanto para conquistá-los.


Quando uma parcela da população conquista a duras penas algum direito, é doloroso perdê-lo. E embora alguns possam achar bom, já que não concordava com aquele direito, é preciso que TODOS se atentem ao fato de que, hoje foi o meu direito que foi retirado, amanhã é o do vizinho e logo pode ser o seu e o de todos nós.


Talvez seja justamente por isso que direitos nunca sejam definitivos.


A história nos mostra que quem concentra poder raramente tem interesse em dividi-lo.

E quanto menos direitos existirem, mais fácil é concentrar ainda mais poder.


Os direitos nunca pertencem apenas a quem mais precisa deles.

Eles pertencem à democracia.

E toda vez que um direito deixa de existir para um grupo, a democracia inteira encolhe um pouco.


Talvez seja por isso que eu ainda me emociono quando voto.

Não porque acredito que a democracia seja perfeita.

Mas porque já vivi o suficiente para saber que ela nunca está pronta.


Ela precisa ser escolhida de novo.

Todas as vezes que entramos numa cabine de votação.

Todas as vezes que defendemos o direito de alguém pensar diferente de nós.

Todas as vezes que entendemos que direitos não são concessões.

São escolhas que uma sociedade decide proteger.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Deixando cair as máscaras: o peso do masking no autismo

Uma das características do Autismo que mais dificulta o diagnóstico em meninas e mulheres é a habilidade de masking.

Mas o que é masking? É ser falsa? Absolutamente não.

Masking é a capacidade de imitar gestos, falas e comportamentos sociais para parecer menos estranha.

O que parece natural às vezes foi ensaiado. 

Meninas e mulheres são adestradas desde o nascimento para serem dóceis, suaves, femininas. Para servir aos outros sem reclamar. E, se aliado a isso houver inteligência preservada, nem precisa ser acima da média, o masking é aprendido antes mesmo da fala.

Meninas aprendem cedo a sobreviver socialmente. 

Quando surgiu minha suspeita de autismo, isso foi o que mais me pegou.

“Eu não faço isso. Sou autêntica.”

Será mesmo?

A primeira máscara pode nascer diante do espelho. 

Então vieram as lembranças das horas passadas em frente ao espelho, examinando minhas expressões, ensaiando sorrisos, conversando sozinha para desenvolver minha capacidade de falar com os outros.

Lembrei também da época em que trabalhei em um escritório de contabilidade. Quando comecei lá, eu chegava e dizia apenas “oi”. Uma colega sem papas na língua, que depois virou uma grande amiga, me corrigiu:

“Oi nada. Dê bom dia às pessoas.”

E assim, aos 30 anos de idade, aprendi a dar bom dia.

Algumas pessoas aprendem regras sociais por instinto. Outras, por estudo. 

Existe um cálculo invisível em cada interação. 

Aos 34, quando recebi o diagnóstico de esclerose múltipla e comecei minha rotina de viagens para consultas e exames, percebi outra coisa: se eu tratasse as pessoas dos guichês da vida com educação, mas acrescentasse um sorriso simpático e alguma observação empática tipo “deve ser difícil lidar com público, né?”, elas se desarmavam e me atendiam com mais cordialidade.

Isso não é falsidade.

É aprender como as relações sociais funcionam em cada contexto e se adaptar para obter um resultado melhor.

Ainda hoje, é quase impossível ser amável e empática quando estou no limite da sobrecarga, da fadiga e da dor. Mesmo assim, eu me esforço, porque é assim que eu gostaria de ser tratada.

Mas esse movimento não é natural.

Não é falsidade. É tradução emocional. 

É pensado. Calculado.

Não para parecer algo que não sou, mas para conseguir demonstrar algo que sinto e não consigo expressar naturalmente.

Até pedir pão pode exigir roteiro. 

Sempre que preciso falar com um estranho, mesmo numa situação banal, como pedir pão na padaria, eu ensaio minha fala.

Ensaio para lembrar de dar bom dia, de sorrir ou ao menos relaxar o rosto para não parecer brava, pedir meu pãozinho com educação e agradecer depois.

Só que, se antes de eu começar o atendente disser alguma coisa, meu roteiro quebra.

Eu me atrapalho, gaguejo, saio dali parecendo uma pessoa em completo sofrimento psíquico que não conseguiu nem pedir pão.

Talvez porque seja exatamente isso que aconteceu.

As pessoas não seguem o roteiro do meu ensaio.

O improviso social pode parecer um abismo.

Em dias bons, descansada, consigo improvisar e resolver. Mas isso raramente acontece, porque sair de casa já provoca sobrecarga.

O desgaste mora nas pequenas coisas. 

Esses são exemplos pequenos, quase bobos, do meu dia a dia. Mas o masking acontece em muitas situações em que ele nem deveria existir.

Mesmo entre amigos. Mesmo entre familiares.

O masking não termina quando acaba a socialização. 

Eu calo o que estou sentindo ou pensando e forço uma interação mais “normal” para evitar conflitos, para ser aceita, querida.

E o masking social não é exclusivo de pessoas neurodivergentes. Todo mundo faz isso em algum momento. Numa reunião de trabalho em que você está exausta, mas continua sorrindo para não perder o emprego, por exemplo.

A diferença é que, para quem é neurodivergente, isso acontece o tempo inteiro.

Desde sempre.

E consome uma energia gigantesca.

Viver atuando cansa mais do que parece. 

O diagnóstico também é desaprender máscaras.

Uma das primeiras necessidades que vieram junto com o diagnóstico foi aprender a me livrar disso.

Não vou me tornar mal educada. Mas vou me permitir me esforçar menos quando não tiver energia suficiente.

Aprender a deixar cair as máscaras do dia a dia é tão satisfatório quanto doloroso. E também gera conflitos.

Porque as pessoas percebem a diferença.

Hoje, já não peço licença para me isolar. Sei que preciso disso toda vez que chego em casa, mesmo que tenha saído só para ir ali e voltar.

Descansar deixou de ser culpa. 

Minha família e as pessoas mais próximas já sabem disso.

Se conseguem entender, é outra conversa.

Porque entender exige interesse. Exige disposição para aprender sobre a minha condição, sobre o que me afeta e sobre como evitar minhas crises.

E quem não tem interesse em entender, sinto muito.

Eu cansei de sobreviver performando normalidade. 

Eu já não tenho mais interesse em sofrer para que os outros se sintam confortáveis na minha presença.